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quarta-feira, 23 de novembro de 2011

O processo eleitoral para o DCE/UFT, o movimento estudantil, os militantes e a seguinte incógnita: votar ou não votar? Eis a questão...

Novamente o ciclo se reinicia. Para quem já é veterano na Universidade Federal do Tocantins não é novidade o fato de algumas pessoas interromperem a aula e solicitarem ao professor quinze minutinhos para apresentarem suas propostas para a gestão anual do DCE. Eles chegam com mochilas nas costas, panfletos em punho, adesivos no peito, alguns despenteados e até moribundos, outros com olhares vibrantes ostentando confiança, mas todos com seus velhos discursos decorados e pronunciados de forma enfadonha. Enquanto o candidato à presidência recita, os demais componentes tratam de distribuir a nobre papelada, carregada de propostas mirabolantes, para transformar a Universidade: ampliar a assistência estudantil, construir laboratórios, creches, restaurantes, ginásios e por aí vai, ou seja, apresentam uma variedade de proposições para conquistar o voto e a confiança dos “apáticos” colegas de Instituição! E há uma diversidade de chapas. Cada uma juga-se mais competente que a outra para coordenar os rumos do movimento estudantil na Universidade. São alunos e alunas que se definem como militantes do movimento estudantil. Falam da importância de votar, de como o histórico dos candidatos devem ser analisados, mas não são suficientemente honestos com seu eleitorado. De fato, para nós, veteranos, esse ciclo-vicioso não é novidade, é algo medíocre e enfadonho.
É medíocre porque ocorre de forma análoga ao processo eleitoral político partidário que elege os representantes da população nos cargos de vereador a presidente. É enfadonho porque são predominantemente as mesmas pessoas que, ano após ano, conduzem este ciclo. Acontece que o que presenciamos a cada processo eleitoral é um ensaio do que acontece na esfera macro da sociedade.
Inegavelmente nos vemos diante da responsabilidade de votar. Decorre daí a velha questão: em quem devo votar? “No menos pior!” Diz o aluno veterano, experiente em exercer sua pobre cidadania. Mas como saber quem é o menos pior? Quais são os critérios para tal mensuração? Se fossemos escolher em quem votar baseados nos panfletos mirabolantes e discursos enfadonhos seria uma tarefa relativamente fácil. Caberia a nós identificar qual chapa propõem aquilo que compreendemos como fundamental para a Universidade. Mas não podemos tomar tal decisão baseados apenas no que eles falam, devemos ir além e examinar o que eles fazem em seu quotidiano. Estamos então em uma situação complicada.
Atualmente temos três chapas que disputam a gestão do Diretório. Temos três “discursos diferentes”, mas ações similares: eles não são honestos, no sentido de expor suas vísceras ao nosso julgamento. Cada uma dessas chapas representam interesses diversos, alguns escamoteados, outros escancarados, mas nenhum ingênuo ou inocente. Cabe a nós a responsabilidade de identificar quem é quem nessa parada. Assim, temos que identificar quem são os candidatos, o que propõem e como pretendem executar suas propostas.
Vamos por partes, quem são eles? De modo geral estudantes vinculados a interesses de partidos políticos eleitoreiros. Estudantes sem compromisso com a Universidade, pois sua estada aqui consiste apenas em atuar enquanto marionetes destes partidos, alguns até recebem mesadas para isso. Estudantes que prestam o vestibular apenas para ter um vínculo institucional com a UFT, sem compromisso algum com sua formação acadêmica, visto que se matriculam em apenas uma disciplina, e às vezes chegam a reprova-la.
Quando passamos no vestibular da UFT ingressamos em uma Instituição pública, isso se configura, para maioria das pessoas, como um marco condicionante de realização pessoal. Ingressamos com perspectivas diversas: queremos uma profissão, autonomia, conhecimento etc. Acontece que o quotidiano universitário pode mudar nossa vida para além de nossas perspectivas primárias. Se durante nossa graduação a Universidade não se resumir do ponto de ônibus à sala de aulas, perceberemos que a Universidade se configura como uma realidade complexa. Compreender a Universidade como uma realidade, implica compreender essa mesma realidade, e compreendê-la não como algo dado, natural, mas como uma construção social. Assim, temos que ter claro que a UFT possui sua história, e esta revela que sua construção foi desencadeada por diversos atores.
Uma Universidade se caracteriza devido à indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão, é essa tríade que nos possibilita uma educação de qualidade. Portanto, se nossa graduação se resume ao ensino, como podemos ter uma educação de qualidade? E ainda que tenhamos uma educação de qualidade, precisamos nos ater a que qualidade essa educação remete. Devemos sempre nos questionar sob que condições estamos nos graduando na UFT. Essas condições são favoráveis a nossa permanência com qualidade?
Dentro da UFT encontramos três categorias centrais que desencadeiam efetivamente o processo de construção da Universidade, são elas: Trabalhadores Técnico-administrativos; Discentes; e Docentes. Essas três categorias definem, através dos espaços de deliberação institucional, a identidade da Universidade. Cada uma destas três categorias tem entidades que as representam nos espaços deliberativos, promovem discussão acerca da universidade, acerca da sua categoria, de suas condições de trabalho, no caso docente e técnico-administrativo, e de graduação, no caso discente, ou seja, os trabalhadores técnico-administrativos e os trabalhadores docentes têm seus sindicatos e os discentes tem o DCE para apresentarem e defenderem seus interesses.
Nos últimos meses vivemos um processo de participação política na UFT ligeiramente acentuado. Tivemos consultas eleitorais para Diretores de campis, uma greve Docente, e uma greve dos trabalhadores Técnico-administrativos, e, atualmente, a eleição para o DCE, sem falar que ano que vem teremos consulta eleitoral para Reitor da Universidade. Essa conjuntura revela que dentro da UFT existem disputas, confrontos de interesses, contradições. Diante do exposto, voltamos à seguinte questão: votar ou não votar?
Já revelamos quem são os candidatos, mas antes de responder se devemos votar ou não, cabe-nos agora fazer uma breve descrição do movimento estudantil e do papel que ele desempenha no processo de construção da UFT. Institucionalmente, o movimento estudantil se organiza a partir de suas entidades representativas: Diretório Central dos Estudantes (DCE), que representa os discentes de todos os campis da UFT; Diretórios Acadêmicos (DAs), que representa todos os estudantes de determinado campus; e Centros Acadêmicos (CAs), que representa todos os estudantes de determinado curso. Por espaços deliberativos entendemos o Conselho Universitário (Consuni), o Conselho de Ensino Pesquisa e Extensão (Consepe); os Conselhos Diretor de Campus; e os Colegiados de Cursos.
Para que a representação discente ocorra de forma comprometida com os anseios e reivindicações dos representados, cabe às entidades (DCE, DAs e CAs) promover debates e discussões com os estudantes. Estas discussões podem acontecer em fóruns, assembleias, reuniões etc. para que os membros das diretorias das entidades possam representar os estudantes de forma efetiva. No caso das greves referenciadas acima, o apoio do movimento estudantil é fundamental. No caso da UFT, os membros do DCE, sem realizar nenhuma assembleia discente, manifestaram repúdio à greve docente e se aproveitaram da situação para tirar fotos com personalidades políticas em Brasília – DF. Cabe ressaltar que a construção consciente e comprometida de uma Universidade decorre da articulação entre as três categorias, a desarticulação delas é interesse do grupo dominante que detêm supremacia nos espaços deliberativos.
Neste sentido, o movimento estudantil predominante na UFT negligencia seu corpo discente, pois o compromisso firmado entre os militantes não é com sua base política, mas sim, com partidos políticos eleitoreiros e, pasmem: grupos empresariais! Mesmo que de forma escamoteada é assim que se dá o processo. Uma das formas para perceber a relação entre militantes do movimento estudantil e partidos políticos eleitoreiros é questionar a fonte de recursos usados no processo eleitoral: os panfletos mirabolantes, as viagens de Mitsubishi de um campus a outro, as reuniões em bares, boates e churrascos em residências, etc. Se essas chapas fossem minimamente honestas com seu eleitorado prestariam conta dos recursos utilizados na campanha. Campanha, isso mesmo! No entanto, não nos iludamos, o corpo discente não é cego para essas questões. Se lembrarmos do ultimo processo eleitoral para o DCE/UFT e nos atermos ao número de votantes, perceberemos que há uma crise de representatividade imperando no movimento estudantil, visto que ano passado, quando a UFT tinha pouco mais de 10 mil estudantes, a soma dos votos no processo eleitoral não contabilizou se quer quatro mil votantes. Podemos daí, formular várias hipóteses sobre a abstenção de votos, mas sustentamos veementemente que o movimento estudantil na UFT carece de novas bases teóricas de sustentação, carece de uma prática que se fundamente no quotidiano dos estudantes que coordenam o movimento estudantil na UFT e encaminham as decisões do corpo discente.
A UFT carece de um movimento estudantil pautado em uma práxis caracterizada pelo comprometimento dos estudantes com a construção de uma Universidade que se configure como um instrumento de transformação social, que conteste a realidade. Neste sentido, a resposta à questão: se devemos votar ou não se encontra nas entrelinhas do presente texto. Para finalizar, propomos que cada curso construa um coletivo que conteste a realidade do movimento estudantil e lance bases para uma militância comprometida com os estudantes.


Diogo Texeira de Castro
Coordenador de Atividades Sociais do CA de Pedagogia
diogotcs@hotmail.com
Renan Rocha Gonçalves
Coordenador Geral do CA de Pedagogia
renan_ped@uft.edu.br 

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